1. Reader's digest
Já me disseram que Matadores de velhinhas dos irmãos Cohen, filme livremente inspirado em Edgar Allan Poe, não prestava. Confesso que fiquei um pouco ferido no orgulho. Com muito afinco tentei contemporizar, dizendo que o humor típico dos diretores estava lá, que o filme era interessante, que as referências eram toscas mas não bestas etc. Tudo em vão. Hoje acho que fiz bem. Diante da teimosia do meu interlocutor, acho não adiantaria desfiar mais argumentos. E, francamente, agradeço hoje por não ter externado tudo o que pensava sobre o filme. É que, na verdade, gostei muito do filme. Aliás, exatamente por ele misturar o pastiche dos filmes de assalto high-tech (como 12 homens e um segredo) com uma função bem desabusada para O Corvo e outros.
Não, meu exigente movie flick, não se trata de uma adaptação, como um Visconti fazendo um Thomas Mann, ou mesmo (para não apelar) O Leitor. Ao contrário. O Poe ali é aparentemente só a desculpa que um muito canastrão bandido-disfarçado-de-professor-universitário arruma pra enganar uma velhinha, numa cidade que, pelos sotaques, adivinhamos ser do sul do país. Fingindo saudades e melancolias refinadíssimas, recitando poemas no chá da tarde das viúvas, o scolar quer convencê-la a deixá-lo hospedar-se em sua casa. E então, com o pretexto de montar um conjunto de câmara barroco em seu porão, ele junta um bando de pés-de-chinelo, a fim de abrirem um túnel que leva da casa até um cofre.
Mas, ao longo da trama, tome-lhe referências do bardo alcoolista.
Mas, ao longo da trama, tome-lhe referências do bardo alcoolista.
Exemplos. O que dá o tom de cada cena é o retrato do falecido marido, ex-pastor da comunidade, que aparece cada vez com uma expressão diferente sobre a lareira, enquanto a velhinha tricota. Este é um truque que os desenhos animados ainda exploram, mas fazia o sucesso da literatura de mistério do XIX. Além disso foi o precedente necessário para que o Poe pudesse escrever seu Retrato oval. Como em O gato preto, um bichano advém em momento chave do filme, providenciando que os maus propósitos não triunfem. Na cena em que os patetas cavam o túnel, dois deles, pouco amistosos um com o outro, quase são soterrados vivos. O modelo aqui é O barril de Amontillado. O qual, por sua vez, não passava de um conto em que o assassinato revertia uma disputa comercial. Por fim, é um corvo que, frustrando definitivamente a malícia contra a velhinha pensionista, diz nevermore para o PhD.
Acontece que a função do Poe é mais importante no filme. Mas isso não dá pra dizer, sem tentar entender de que, afinal, eram feitos seus contos. E aí, acho que meu interlocutor não teria paciência para me seguir. Deixo-o de lado então, satisfeito com sua antipatia leve, embora irredutível e perene.
2. O sinistro postiço de Edgar Alan Poe
Se E.A.Poe alçava a outro patamar a mistura talvez involuntária de baixa e alta literatura de um Washington Irving, é porque, contra todo o aspecto fechado e objetivo da narrativa realista, ele trazia sempre à proa de seus contos de horror uma figura pernóstica. Uma figura que ao mesmo tempo conduzia, se assombrava com cada virada sobrenatural da história e, por fim, tentava decifrá-las na medida de suas humanas limitações. Mas todo bom leitor sabe que não devemos acreditar no que diz aquele pobre homem. Afinal, como não perceber os furos do iniciado nos mistérios d'além que vaza sua sabedoria num latinório mais do que suspeito?
Isso levado em consideração, nos contos de Poe, perceberemos que a arte e a ciência, tomadas como artifícios consagrados, são rebaixados. E o saõ por serem igualados à crendice e exibidos como tais. As mesmas inconsistências, a mesma furada pretensão de verdade que ainda hoje lemos nas mais abstruzas notas de "descobertas científicas" fazia a alegria daquele peculiar escritor. Por isso mesmo, a crendice, pretendendo estar, em seus contos, acima do conhecimento profano, tinha que fazer um papel de decifração da vida moderna que não lhe cabia e acabava por ser desmentida.
É daí que talvez prosceda o sinistro postiço dos contos de horror do jornalista de Baltimore. Personificadas nas assombrações kitsch, as forças que regem o destino dos heróis, enquanto são escondidas no romance, em seus contos são sinceramente mistificadas por uma figura central. No entanto, quando essa figura se propõe a decifrar os mistérios das histórias que conta, a sabedoria que ela expõe a ridiculariza. E assim ela fica abaixo do nível de seriedade e normalidade que se espera de um narrador.
A melhor tradição crítica materialista gosta de tecer loas à ironia formal dos grandes nomes do realismo. Entretanto, é engraçado notar como o tom que resulta de Poe não é irônico. Nem satírico, nem essencialista. Tampouco edificante. Numa palavra, trata-se de um tom de afetação de comicidade involuntária, extraida da pretensão de domínio de uma matéria já de si de uma estranheza banal. Detalhes que passarão ao largo da compreensão do leitor, caso o que ele esteja procurando em seus contos seja, ou a descrição minuciosa das batalhas da vida, como fazem os leitores viciados em Balzac e Flaubert, ou então, a revelação dos obscuros segredos dos espíritos.
Acontece que a função do Poe é mais importante no filme. Mas isso não dá pra dizer, sem tentar entender de que, afinal, eram feitos seus contos. E aí, acho que meu interlocutor não teria paciência para me seguir. Deixo-o de lado então, satisfeito com sua antipatia leve, embora irredutível e perene.
2. O sinistro postiço de Edgar Alan Poe
Se E.A.Poe alçava a outro patamar a mistura talvez involuntária de baixa e alta literatura de um Washington Irving, é porque, contra todo o aspecto fechado e objetivo da narrativa realista, ele trazia sempre à proa de seus contos de horror uma figura pernóstica. Uma figura que ao mesmo tempo conduzia, se assombrava com cada virada sobrenatural da história e, por fim, tentava decifrá-las na medida de suas humanas limitações. Mas todo bom leitor sabe que não devemos acreditar no que diz aquele pobre homem. Afinal, como não perceber os furos do iniciado nos mistérios d'além que vaza sua sabedoria num latinório mais do que suspeito?
Isso levado em consideração, nos contos de Poe, perceberemos que a arte e a ciência, tomadas como artifícios consagrados, são rebaixados. E o saõ por serem igualados à crendice e exibidos como tais. As mesmas inconsistências, a mesma furada pretensão de verdade que ainda hoje lemos nas mais abstruzas notas de "descobertas científicas" fazia a alegria daquele peculiar escritor. Por isso mesmo, a crendice, pretendendo estar, em seus contos, acima do conhecimento profano, tinha que fazer um papel de decifração da vida moderna que não lhe cabia e acabava por ser desmentida.
É daí que talvez prosceda o sinistro postiço dos contos de horror do jornalista de Baltimore. Personificadas nas assombrações kitsch, as forças que regem o destino dos heróis, enquanto são escondidas no romance, em seus contos são sinceramente mistificadas por uma figura central. No entanto, quando essa figura se propõe a decifrar os mistérios das histórias que conta, a sabedoria que ela expõe a ridiculariza. E assim ela fica abaixo do nível de seriedade e normalidade que se espera de um narrador.
A melhor tradição crítica materialista gosta de tecer loas à ironia formal dos grandes nomes do realismo. Entretanto, é engraçado notar como o tom que resulta de Poe não é irônico. Nem satírico, nem essencialista. Tampouco edificante. Numa palavra, trata-se de um tom de afetação de comicidade involuntária, extraida da pretensão de domínio de uma matéria já de si de uma estranheza banal. Detalhes que passarão ao largo da compreensão do leitor, caso o que ele esteja procurando em seus contos seja, ou a descrição minuciosa das batalhas da vida, como fazem os leitores viciados em Balzac e Flaubert, ou então, a revelação dos obscuros segredos dos espíritos.
3. Os matadores de ilusões
O que isso tem a ver com os irmãos Cohen? Ora, tudo...
Quem viu com simpatia seus filmes percebe logo que o assunto deles são os horrores que acontecem quando as personagens se deixam levar pelas promessas de sucesso e enriquecimento. Fantasmas descarnados de ontem, fantasmas polpudos de hoje. Entretanto, talvez o que há de atual em seus filmes esteja mais nos procedimentos técnicos que eles inauguraram do que nos temas. Pois conforme aumentava a onda de filmes sangrentos-cool, cujo maior nome era o de Tarantino, os filmes deles também foram crescendo em renome.
Mas se é isso mesmo que eles trouxeram à tona, então eles já deveriam ter sumido do mapa. Afinal essa onda se ramificou, fez a graça perversa de toda uma estética de seriados (o mais extremo, Dexter), e, sem propriamente terminar, teve de ser reformulada ante a mudança do cenário depois da Era Bush. Aí é que está: sabemos que não é isso que aconteceu. Certamente Tarantino é hoje mais celebrado. No entanto, nem por isso os irmãos Cohen deixam de ter a oportunidade de fazer quase um filme por ano. É um pouco então como se eles ainda tivessem algo a oferecer à máquina...
O quê?
Bem, assim como Clint Eastwood encontra o americano perseverante, trabalhador (e agora tolerante) no fundo de cada alma da era Obama, os filmes dos irmãos Cohen são pérolas (digo, ametistas bem falsas) variando em torno dos truques complicadíssimos - e os danos sangrentos e estrondosos - que os malandros têm que inventar, no intuito de cavar o almighty dollar. Assim sendo, desde Fargo até Queime depois de ler, em cada um de seus filmes, um humor diretamente inspirado no cineasta de Pulp Fiction opera, com a diferença, é claro, de aparecer desvinculado daquelas abstrusas tramas do diretor cult. E derivado, sempre com bom olho realista, para diversos formatos recentes de filmes. Dentre eles o policial de serial killer (Onde os fracos não têm vez/ O silêncio dos inocentes), o thriller de conluio de bons cidadãos que acaba em assassinato (Fargo/Cova Rasa), o filme de trama internacional (Queime depois de ler/A intérprete) etc.
Veneno extraído do cínico palavrório liberal de todo dia? Realismo esquisito que transforma em diversão o mesmo senso de realidade que conjuga tortura, guerra e espírito de aldeia global? Certamente...
Convenhamos todavia: isso se faz com mais tranquilidade quando a trama viaja entre western macarrônico e blackxploitation, tudo para alimentar o desejo de vingança que dormita em cada um dos espezinhados na guerra do dia a dia. Até que dá para estar à altura da tarefa num policial, num thriller, num filme de terror. Já coisa bem diferente é extrair disso a comicidade meio inocente meio sacana que sempre animou as comédias.
É que, quando, no intuito de sobreviver, quase ninguém deixa de ser vítima de alguma ilusão, quem consegue rir sinceramente das que abraça, sem rir dos corpos que elas vão deixando pelo caminho? Noutras palavrasm, como conjugar tanto sangue, violência, ódio mútuo e desespero com o espírito desarmado do gênero cômico?
No Matadores de velhinhas - cujo nome, num feliz caso de "tradução" acertada, já fixa essa desproporção - é o velho corvo do Poe quem dá a resposta...