Há pouco tempo, Sophie Calle procovou um pequeno celeuma no Brasil. Chegava a São Paulo sua mais conhecida obra. Na verdade não uma obra. Tratava-se, a bem dizer, de um processo. Em que consistia? Em sugerir às pessoas que tomassem a inciativa de responder à carta de ruptura de relacionamento de um antigo namorado seu. O resultado, assim como a carta do infeliz ex, seria arranjado e disposto para os olhos do público e ganharia, dessa maneira, estatuto estético, à moda contemporânea.
Nem é preciso dizer que a cartinha inocente suscitou reações as mais diversas, atravessando muitos jornais, periódicos críticos e conversas pelo mundo afora.
À boca miúda, o direito de expressão esgrimia com a preservação da intimidade. Muito se falou sobre o rearranjo das esferas público e privada sob a influência da mídia. Chauvinistas e feministas brigaram. Temas correlatos (como a exposição da privacidade nas páginas de relacionamento) foram esmiuçados nas revistas semanais. Mais um pouco e a marcha pela moral logo tomaria as ruas, sendo imediatamente confrontada pelo flash mob.
A questão, no entanto, não é nova. No século XIX, haviam os diários privados, repositório de alegrias e misérias que não se dizia impunemente à luz do dia. O romance epistolar nasceu justamente dessa confusão. Todo o romantismo, o grande romance realista e o modernismo viveram dessa saudável confusão entre ficção e verdade. Também o teatro. Afinal, a transformação de questões privadas em material estético era uma aposta antiga do drama.
No entanto, depois de ter passado pela contestação de todos os movimentos e autores do século XX, cujo interesse era deslocar dos conflitos afetivos o foco de compreensão da vida - colocar a perspetiva íntima como apenas uma entre outras maneiras de contruir uma totalidade de sentido - paradoxalmente, esse procedimento retorna.
Mas, como retorna?
Bem, ele vem despido da aura de seriedade com que o drama o recobriu. Vem sem sombra da profundidade e do pathos universalizante que o romantismo lhe conferiu. Chega sem ilusões, ligado à busca da arte atual de se desvincular das intenções totalizantes da tradição e das vanguardas. Oposto até à maneira excessivamente estetizante com que a pop arte explorou o mundo da personalidade enlatada. Ou seja, ele vem reanimado (ou requentado) pelo melhor espírito anti-artístico do modernismo (!)
Ou seja, por via da exposição da intimidade na esfera pública - agora não-ascéptica - da arte, é como se os artistas contemporâneos quisessem descobrir como, de fato, a verdadeira vida, inapreensivel pelo grande arsenal da tradição, realmente se passa [muito embora compreendam arte e vida como simulacros reais (!)].
De fato, há alguma coisa de verdadeiro nesse movimento de desmoralização da arte, que busca dar conta da vida estetizada. No entanto, fica a dúvida: será que a resistência mínima que o resquício aristocrático da arte (a distânica estética) impunha à vida não tinha um poder crítico hoje inacessível a essa coleção de dores de coração sem coração? A arte de amadores; a arte que vem da vida (que o sujeito isolado conhece melhor que o artista) dá conta do domínio compacto da ficção sobre a vida?
É uma questão em aberto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário