I
Ocaso. O horizonte da cidade. Negra silhueta de concreto, vivo tecido. Uma última fímbria de epiderme contém a derrama do céu escarlate. A limítrofe imitação do desespero. Dois homens trêmulos, descompensados, a espinha semi-curvada. O que se pode chamar ação; o que se pode chamar espectadores. No rosto, as notícias do dia. Índices, cotações.
II
A carta capital, diariamente reimpressa: os mesmos cálculos da força, as mesmas medidas de gravidade. Hecatombes constantes, fome com mais ou menos maquiagem. Ou apenas tiros que estalam contra um muro gasto e empoeirado. A pantomima do pânico, alarme sui generis. O estampido, os assassinos acuados, os suicidas, imolados.
III
Diante das câmeras, cálculo e comoção. As duas irmãs rivais reanimam o cadáver esbaraçoso. Dos recursos, o mais antigo: o drama, a história, as palavras que já sabemos. O tempo liso, distendido, embora o factual o exploda, dentro e fora das personas. Cacoetes, cenografia. A câmera e o sol maquinal do meio-dia nos imprimem contra a parede. Sombras estridulam. Imponderável trapaça no jogo de cena.
IV
Restolhos, memórias, premonições sem objeto. Refugos empilhados no fundo do cristalino. Todos os cadáveres do mundo sustentam uma única mão, invisível. Em menor escala: dois olhos encontram-se, ao trespassar as manchetes do caderno cotidiano. Procuram-se, por um momento. Hesitam. Nada de mais. A sondagem da audiência passa por um delírio circunstancial. Perturbação singela na sucessão vertiginosa dos anúncios. Rubor nos ombros do arranha-céu. Içam-se dorsos. E, no entanto, nada se enxerga sob a luz vertical dos refletores. A desconhecida trajetória dos corpos.
V
Uma navalha rasga à seco o olho. Abertos, duplicados ao infinito. Cristal refratário, seco, inconcluso. A terra não há de os comer. No espelho imaterial pulsam imagens cruentas.
VI
O pano, intacto, esconde a cena novamente. A pele não romperá por si só.
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domingo, 21 de março de 2010
Anti-vértice, derrama e contenção, o jogo sem cena
I
Ocaso. O horizonte da cidade. Negra silhueta de concreto, vivo tecido. Uma última fímbria de epiderme contém a derrama do céu escarlate. A limítrofe imitação do desespero. Dois homens trêmulos, descompensados, a espinha semi-curvada. O que se pode chamar ação; o que se pode chamar espectadores. No rosto, as notícias do dia. Índices, cotações.
II
A carta capital, diariamente reimpressa: os mesmos cálculos da força, as mesmas medidas de gravidade. Hecatombes constantes, fome com mais ou menos maquiagem. Ou apenas tiros que estalam contra um muro gasto e empoeirado. A pantomima do pânico, é claro. Alarme sui generis. O estampido, os assassinos acuados, os suicidas, imolados.
III
Por cima das cabeças, diante das câmeras, cálculo e comoção. As duas irmãs rivais reanimam o cadáver esbaraçoso. Novamente. Dos recursos, o mais antigo. O drama, a história, as palavras que já sabemos. O tempo liso, distendido. Embora o factual o exploda, dentro e fora das personas, reduza a pó toda a cenografia. A câmera e o sol maquinal do meio-dia nos imprimem contra a parede. Sombras estridulam. Imponderável trapaça no jogo de cena.
IV
Restolhos, memórias, premonições sem objeto. Refugos empilhados no fundo do cristalino. Todos os cadáveres do mundo sustentam uma única mão, invisível. Em menor escala, dois olhos trespassam as manchetes do caderno cotidiano. Procuram-se, por um momento. Hesitam. Nada de mais. A sondagem da audiência passa por um delírio circunstancial. Perturbação singela na sucessão vertiginosa dos anúncios. Rubor nos ombros do arranha-céu. Içam-se dorsos e, no entanto, nada se enxerga sob a luz vertical dos refletores. A desconhecida trajetória dos corpos.
V
Os olhos perderam-se, para sempre. Rasgou-se a retina. Permanecerão abertos, duplicados na própria luz que os faz enxergar. Cristal refratário, seco, inconcluso. A terra não há de os comer. No espelho imaterial pulsam imagens cruentas.
VI
O pano, intacto, esconde a cena novamente. A pele não romperá por si só.
Ocaso. O horizonte da cidade. Negra silhueta de concreto, vivo tecido. Uma última fímbria de epiderme contém a derrama do céu escarlate. A limítrofe imitação do desespero. Dois homens trêmulos, descompensados, a espinha semi-curvada. O que se pode chamar ação; o que se pode chamar espectadores. No rosto, as notícias do dia. Índices, cotações.
II
A carta capital, diariamente reimpressa: os mesmos cálculos da força, as mesmas medidas de gravidade. Hecatombes constantes, fome com mais ou menos maquiagem. Ou apenas tiros que estalam contra um muro gasto e empoeirado. A pantomima do pânico, é claro. Alarme sui generis. O estampido, os assassinos acuados, os suicidas, imolados.
III
Por cima das cabeças, diante das câmeras, cálculo e comoção. As duas irmãs rivais reanimam o cadáver esbaraçoso. Novamente. Dos recursos, o mais antigo. O drama, a história, as palavras que já sabemos. O tempo liso, distendido. Embora o factual o exploda, dentro e fora das personas, reduza a pó toda a cenografia. A câmera e o sol maquinal do meio-dia nos imprimem contra a parede. Sombras estridulam. Imponderável trapaça no jogo de cena.
IV
Restolhos, memórias, premonições sem objeto. Refugos empilhados no fundo do cristalino. Todos os cadáveres do mundo sustentam uma única mão, invisível. Em menor escala, dois olhos trespassam as manchetes do caderno cotidiano. Procuram-se, por um momento. Hesitam. Nada de mais. A sondagem da audiência passa por um delírio circunstancial. Perturbação singela na sucessão vertiginosa dos anúncios. Rubor nos ombros do arranha-céu. Içam-se dorsos e, no entanto, nada se enxerga sob a luz vertical dos refletores. A desconhecida trajetória dos corpos.
V
Os olhos perderam-se, para sempre. Rasgou-se a retina. Permanecerão abertos, duplicados na própria luz que os faz enxergar. Cristal refratário, seco, inconcluso. A terra não há de os comer. No espelho imaterial pulsam imagens cruentas.
VI
O pano, intacto, esconde a cena novamente. A pele não romperá por si só.
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