quinta-feira, 12 de maio de 2011

Notas sobre "Querelle" de R.W.Fassbinder

Jogo de espelhamentos levado ao paroxismo. Uma fé genuína na impotência da arte em transformar a vida deve atuar como veneno contra a vida intransformável ("nada é verdadeiro, só o que a arte diz o é").

Por isso os signos, os códigos autistas de significado proliferam: o tarô, toda a história da cenografia redundando num céu quente alaranjado kitsch, evidentemente de estúdio; a cultura gay como apanágio da cultura guerreira pré-moderna (as ameias da cidade portuária são cacetes; os cacetes separam a vida do mar aberto); o ambiente cheio de espelhos na boate.

Isso acontece na trama também: Querelle tem um irmão, eles são "a mesma pessoa"; o irmão substitui o dono do bar como marido da vedete, ela é o amor isolado, que não serve para nada, mas seu marido tira trepadas, com os dados, de quem quer comê-la; Gil Turko quer a irmã do galãzinho, mas é o galãnzinho que ele bolina, amedrontando-o com o desejo por ela; por sua vez, ele servirá para encobrir o assassinato que Querelle comete, tomando seu lugar na acusação do policial, com quem Querelle também flerta; Querelle se apaixona por Gil Turko, mas quando ele o faz, é por si mesmo que se apaixona, isso faz como que ele o vista como o irmão. Mas o momento de identificação ideal com o outro, suprema realização da humanidade, é o momento da mais alta traiçao: serve para, ao mesmo tempo, livrar a barra de Querelle com a polícia, incriminar o irmão e destruir Gil Turko. Ou seja, quando Querelle se encontra consigo mesmo, no outro, ele não concide consigo, e sim destrói seu duplo - Gil Turko e o irmão. O plano afinal de contas dá certo, mas, numa paródia de final de melodrama (as revelações), a pitonista/vedete desmente nas cartas toda a trama: o irmão foi destruído à toa, ele não tinha um irmão (é sob esse mal auspício que o filme começara, e assim ele se prova nada mais do que uma mão de jogo de baralho, que prometia a vitória mas não passava de uma série de combinações abstratas em potencial).

Mas aí intervém o jogo de espelhos da própria narrativa: quem conta a história, aparentemente em flashback, é o capitão da nau (o fetichista, aquele que sacrificou a vida para dominá-la com o olhar e o registro distanciado). Mas, chegando no final, Querelle ouve suas gravações, descobre seu segredo. Paradoxalmente, entretanto, isso não é bom para Querelle. Afinal, toda a trama, daí em diante, sai de seu controle, mesmo que ele seja o herói, que vence. Ou seja, seu jogo, mesmo dando certo e permitindo que ele expresse toda a sua devassidão, há de se inverter numa forma de mandato do capitão-narrador. Não importa que Querelle seja o ideal da figura livre e amoral, depois de feito o estrago, o capitão o conduz de volta à nau do trabalho forçado.

E, por fim, há o próprio jogo de espelhamento em que cinema e litratura, Fassbinder e Genet estão implicados. As fontes dos trechos escritos que aparecem em tela branca (herança de Brecht, passando pelo Berlin Alexanderplatz de Fassbinder), só em alguns casos vêm identificadas (Plutarco). Na maioria das vezes, não sabemos se são do romance ou são estilizações de Fassbinder. Ao final, esse mecanismo se fecha em enigma. Pois tudo o que a inscrição, em letra de mão, diz, malgrado vir assinado por Jean Genet, refere-se também a Fassbinder ("não conheceu seu pai, foi criado pela mãe, etc").

A falta completa de autenticidade da literatura é o segredo para aproximá-la das brechas da vida. Querelle pode até ser bom na pena de Genet, mas é poesia ruim, de quinta categoria, nas falas do filme. Harmoniza com o cenário gay, totalmente artificial, que no entanto é filmado com tal perícia pelo diretor, que se transforma num mundo com grande poder alegórico. A violência coincide com o amor; o assassinato é mais libertador que o sexo; a duplicação da imago substitui a reprodução da vida.

Quando a trama realista dos interesses, transformada em jogo vazio, substitui a luta por um mundo mais justo, é da duplicação da falsidade - da vida, das relações, da arte - que brota, paradoxalmente, a luta da arte por um mundo mais justo. .

Esse é o segredo do "Querelle" de Fassbinder

Nenhum comentário:

Postar um comentário